A Saga do Toque: Relato de um Exame de Próstata
A Saga do Toque: Relato de um Exame de Próstata
Victor Costa
Psicoterapeuta de Orientação Psicanalítica, Mestre em Psicologia, tem Poemas Publicados nas coletâneas Invictus e Poetize, 2024.
@ psicoterapeuta_victorcosta
@ rscvictor_poeta
Alguns dias antes do início do Novembro Azul, gostaria de compartilhar um conto, inspirado nas histórias que fazem parte do universo masculina.
Era uma manhã tipica de abril, e ele acordou sobressaltado. Aquele ano marcaria o início da sua vida madura e embora desconfortável, o que se anunciava, havia um certo glamour naquele momento.
Ele, um homem de 40 anos, casado, sem filhos, com uma carreira feita de “períodos de experiência” e uma vida financeira precisando de revisão completa no alinhamento, balanceamento e suspensão, finalmente teria uma experiência de maturidade.
Entre abril e novembro daquele ano, ele procrastinou e feio, alias desligou, pois não lembraria das cores das campanhas de alerta dos meses subsequentes, exceto o azul, que pouco a pouco, se anunciava.
Não dava mais para fugir! “amigos” e conhecidos, que não o felicitaram na ocasião do seu natalício, agora o perseguiam, lembrando dia sim e outro também, que o tão esperado rito de passagem se aproximava, do ponto sem retorno.
Levou a questão para a análise, e sua analista não encontrava nada em Freud que pudesse ajuda-lo. O pobre do Freud morreu de câncer na boca, falou sobre as histerias femininas, e sobre a espada de Édipo, coisa que lhe dava arrepios, uma vez que, o que ele menos desejava naquele momento era a lembrança, nem mesmo, de um mini canivete suíço.
Não podemos afirmar que, a interpretação dada a angústia, naquele dia, tinha algo de sádico, mas ele ouviu, “não há caminhos que eu possa “apontar”, alternativos a este momento", por estar no divã, não pode ver a face dela, mas havia símbolos feministas naquela sala.
Como a ameaça da morte, e pior, a da impotência, são assustadoras, acredito que, com fins de diminuir o preconceito, elas envernizam a coragem e a cara, também.
Enfim, ele recorreu à internet, que naquele tempo ainda sem Instagram, tik-tok, blogueiros e aquelas fotos que têm um prefixo “porn”, não acalentava a alma de ninguém.
Como foi difícil escolher, baseado apenas em informações pouco objetivas e esclarecedoras, ou depoimentos duvidosos, pois era de se duvidar de "muito profissional e educado" apenas, sem elucidar detalhes como técnica/abordagem, polegadas, tempo tortura etc., o que o fez recorrer aos conhecidos.
Quanto constrangimento, se sentiu mais livre na sua primeira confissão. Se sentia tão, ou julgado quanto se tivesse sido flagrado pego na boca de fumo, ou flagrado entrando em uma casa de tolerância de beira de rodovia, ou saindo do motel com a mãe do melhor amigo, ou ainda recebendo a conta do lanche, gourmet, com o qual se tentava impressionar a namorada, com a mesada apertada de quem só tirava notas baixas.
Superadas as piadas, os mitos, lendas urbanas, conselhos, dicas para o antes e o depois, lá foi ele.
De próprio punho, ou relato não conseguiria descrever o fatídico dia! Se sentia mais nervoso, ansioso, amedrontado, inexperiente, sobressaltado que em ocasiões como, a primeira Playboy, o primeiro beijo, o primeiro pedido de namoro, a primeira transa, o primeiro pedido de casamento, o primeiro casamento, e claro, aquele seria o primeiro de uma sequência de muitos…
Não sabia como havia chegado, lembrava apenas de ter entrado, em um lugar em que não queria estar! Sem coragem para encarar a pra recepcionista, cabisbaixo ouviu, e jura que, com dissonante ironia... “-veio ver o doutor, já o conhece”, o que responder pra essa criatura, tratou de procurar um lugar mais reservado e aguardar a “sua hora”, mas não havia, e ele queria saber quem tinha sido o @#$%&* que não havia pensado - ou havia? - nisso!
Mas tudo podia piorar, havia um alguém na saleta, aguardando. Era mais velho que ele, experiente também, supôs. Mas o lance é que ele o olhava com um riso no canto da boca, acenava com a cabeça, levantava as sobrancelhas e… se sentindo ameaçado, se preparou para a luta, e o faria, com, certeza se ele tivesse dado aquela arrumada tipica dos machos…
Foi chamado e a espinha congelou, a voz que pronunciou seu nome era masculina, mas a face não era a mesma que estava na nominata. Fudeu, pensou, será um ménage ?!
Persecutoriedade apenas, mas nem deu tempo de se recuperar quando, a voz grossa lhe estendeu a mão "maos fortes" pensou, mas nao teve coragem para, de relance que fosse, observar quanto era maior que a sua… tentou racionalizar dizendo para si mesmo que a situação, toda, ampliava sua percepção.
O que ele queria, desesperadamente, era ir embora, mas não havia mais como correr e seu algoz começou a esclarecer o ritual ao qual seria submetido…
Um hiato, um alivio momentaneo, suas preces de ateu, foram consideradas, e comemorava pensando “ele desistiu!, a anamnese me revelou saudável…”, mas o idílico momento foi pulverizado pelo “vamos ao exame”!
Não foi uma indagação, havia frieza, naquele imperativo, suagado em direcao à maca, tomaram-no preocupações como ”lavei as nádegas, mijei, gases, minha cueca” as quais -imagine esse narrador - devem ocorrem em quem esta as portas da curra, na esperança que o mau elemento fique com nojo e se evada.
"Baixe a calça até o joelho", ordenou a voz sob o comando da mão.
A sua voz, fugiu e o deixou sem permitir que ele dissesse “preliminares”, pois era tudo que o pavor, lhe permitira.
Quando voltou a si, estava indefeso, as calças abaixadas e um “relaxe”, com tantos sentidos quantos são as pistas de uma auto ban.
Paremos a descrição por aqui, pois daqui em diante, este texto seria consumida por perversos, sádicos, pederastas e feministas e já basta, o dia de “noite de crime".
Sentiu-se inadadido por uma orda bárbara, sem nenhuma educação, ou gentileza, nada, a não ser uma narração que mais parecia um comercial “macia, uniforme…”.
Cessada a tortura, e desconfiado de que “o pendulo” seja uma obra inspirada na urologia, queria sair, mas o sádico, interrompeu a sua largada dizendo “não vai querer a lembrança”.
"Ah FDP, tá folgando" pensava no mesmo instante em que recebia uma foto.
Sim, uma foto, que a princípio nao identificou de que; depois pensou ser um umbigo, não, não seria! mas…
Esse foi o primeiro momento, de uma sequência de longo anos.
Ele foi se acostumando e ficando, pasmem, feliz e grato, sobretudo quando notava que algum dos seus amigos, da sala de espera, já não estão mais lá.
Eu o narrador, acredito que as recorrentes exposicoes, criam uma relação mais próxima e significativa, que permite flores, bombons, cartões de final de ano, enfim, instituia-se um ambiente fraterno, tranquilo daqueles em que se acende um cigarro.
As fotos, ia me esquecendo, elas sim apreendem todo o contexto da relação, longitudinalmente.
As dos primeiros dois anos, notou que evidenciavam o constrangimento e desconforto: cara de asco, recusa, embotamento; nas do 3º e 4º anos, podia-se notar uma leve mudança na feição, que embora ainda tensa, não revelava os vincos profundos de expressão; nas dos 5º e 6º anos, era visível um relaxamento maior, talvez uma tranquilidade; nas do 7º e 8º anos, hávia sinais evidentes de intimidade, liberdade, bastava observar o sorriso largo, franco, e encorajador; na do 9º ano, algo lhe chamou a atenção, havia algo de diferente, mas não soube identificar, e atribuiu à iluminação; mas foi no 10º aniversário que ficou evidente a diferença, havíam caído na rotina, aquela expressão robótica provava.
Decidiu então, romper o relacionamento.
Não foi fácil, é claro, muitas memórias, momentos, risos, mas…
A maturidade pedia novas experiências, e apesar da ansiedade sobre como seriam os novos pareceiros, prossegiu .
Uma nova relação é sempre difícil, mas se sentia confiante… experiência é tudo.
Desde então, têm se permitido a experimentar “dedos” diferentes, experiências inter raciais… e neste novembro pretende experimentar seu primeiro toque hetero.
Está animado, fantasia dedos mais delicados e sensíveis.
Viva sem medo, e não sem dedo!
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